quarta-feira, 13 de abril de 2011

O Menino, a Nuvem, a Andorinha ea Amiga


O Menino, a Nuvem, a Andorinha e a Amiga

Era uma vez um Menino que vivia numa nuvem…
Não me perguntem como lá foi parar. Não sei...
Nasceu lá?... Foi em pequenino?...
Não sei… nem interessa para a nossa história.
Só sei que vivia lá e parecia feliz.

Andava sempre descalço, a nuvem era macia, fazia-lhe cócegas nos pés e isso era agradável.
Também não precisava de se vestir, quando tinha frio enrolava-se nos flocos de algodão da nuvem e ficava quentinho.
Para comer, era só chupar o ar da nuvem e ficava alimentado.
Para dormir, aquele colchão de nuvens era o melhor do mundo.

Mas, passado algum tempo, o Menino começou a andar triste, não sabia o que tinha…
Resolveu chamar a Mãe Natureza para lhe pedir ajuda. Disse-lhe: “Não sei o que tenho. Nada me falta nesta nuvem tão bonita, mas, sinto-me triste”.
A Mãe Natureza percebeu logo o que se passava: “Estás triste porque precisas de um ser vivo ao pé de ti, na nuvem é tudo bom, mas não há vida e por isso te sentes só. Vou-te ajudar.”

Saiu dali e deu logo ordem a uma andorinha que andava na Terra para que voasse para a nuvem e fosse fazer companhia ao Menino.
Ela voou, voou, durante dias e chegou muito cansada. O Menino preparou-lhe logo uma covinha, entre os flocos da nuvem, para poder descansar.
Lá se instalou e começaram a conversar. Ela falava e ele ouvia. Ela tinha muito que contar: Falou-lhe dos beirados dos telhados onde ela e as amigas faziam os ninhos para os seus filhos, disse-lhe que a Mãe Natureza na Terra era muito bonita, falou-lhe dos mares, dos rios, dos lagos, das fontes, das florestas, dos montes, dos vales, dos campos e das flores.
E o Menino ouvia e fazia perguntas e já se ria e estava mais contente.
E ela não o quis desgostar, e por isso não teve coragem para lhe dizer que na Terra também havia homens maus que estragavam a Natureza.

O Menino gostava de poder ter algumas daquelas coisas de que a andorinha falava. Então lembraram-se que ela podia ir à Terra buscar algumas sementes para semear na nuvem.
Voltou a fazer a grande viagem e regressou passado dias, carregada de sementes e muito, muito cansada. Aninhou-se no ninho fofinho e lá ficou enquanto o Menino foi semear todas aquelas sementes. Ao voltar encontrou-a feliz, no seu ninho, a chocar 5 ovinhos.

Entretanto aquela nuvem foi-se transformando. As sementes germinaram, já havia erva, flores, arbustos e árvores grandes a crescer. As crias da andorinha já tinham nascido e esvoaçavam por todo o lado, felizes. O Menino e a andorinha estavam contentes. A Mãe Natureza apareceu para lhes fazer uma visita. Ficou encantada com o trabalho que tinham feito e resolveu colaborar também. Com a sua varinha mágica aumentou a nuvem, deu um aspecto diferente às plantas e povoou tudo com animais.
Apareceu um lago com peixinhos. À volta do lago relva, depois um jardim com canteiros de flores de todas as cores, sebes, um olival, uma seara, até um pequeno laranjal e lá muito ao longe uma floresta. E por todo o lado animais. No jardim havia borboletas e um gato esticado ao Sol, atrás das sebes cavalos e vacas a pastar e um rebanho de ovelhas acompanhadas por um cão pastor. No olival havia coelhos que corriam para um e outro lado e lá longe na floresta, com certeza, muitos animais selvagens.

A Mãe Natureza também vestiu o Menino, deu-lhe umas botas, ensinou-o a fazer uma choupana e a colher os frutos para se alimentar. Depois foi-se embora e deixou o Menino e a andorinha felizes.

Só passado algum tempo é que a andorinha, que andava radiante com as suas crias, reparou que o Menino, embora não dissesse nada, às vezes, sentava-se no chão, cruzava os braços punha-se a pensar, chorava e as lágrimas caíam e desfaziam-se na relva. Ficou apreensiva. O que havia de fazer? Ele não queria falar…

Aquela tristeza durou muito tempo e a andorinha um dia resolveu ter uma conversa séria com o Menino.
“O que é que tens? Não estás contente? A Mãe Natureza ajudou-nos a fazer um mundo tão bonito, só para nós, nada nos falta e tu estás triste?”
“É verdade,” respondeu o Menino, “temos tudo o que impressiona os nossos sentidos: Vemos as lindas cores, as paisagens, os animais nossos amigos e eu vejo-te a ti e tu vês-me a mim. Ouvimos mil sons maravilhosos, o rio a correr, o vento a assobiar nas árvores, os pássaros a cantar. Sentimos o aroma das flores e o cheiro da relva acabada de cortar. Apreciamos o mel das nossas abelhas e o gosto das nossas frutas maduras. Acariciamos os nossos animais: a garupa do cavalo, a lã das ovelhas, e brincamos com os seixos redondos dos nossos rios. Pois é temos tudo isto, mas…”
“Mas quê?” insistia a andorinha admirada, “tens tudo… que mais precisas?”
“Tu não podes compreender, tens os teus filhos, a mim o que me falta…”, dizia o Menino “é alguém em quem eu possa confiar, que me possa entender e eu entendê-lo, que me possa ajudar e eu ajudá-lo, que possa rir e chorar comigo… Tu és minha amiga mas és diferente… não, não podes perceber…”
“Lá isso é verdade, não percebo nada” e a andorinha já meio arreliada, encolhia os ombros: “vocês, os Meninos são tão complicados!”
Desta vez, foi o Menino que se zangou: “Insuportável andorinha, não percebes mesmo nada. Aquilo que me faz falta, mesmo muito falta, até neste preciso momento, é um AMIGO.”
E o Menino desatou a chorar e a andorinha desgostosa não o soube consolar.

Felizmente andava por perto a Mãe Natureza e ouviu aquela conversa. Ela compreendia o Menino e para dizer a verdade até estava à espera daquela reacção.
Então disse-lhe: “Eu posso resolver o teu problema, posso dar-te uma AMIGA com quem te entendas muito bem e com quem poderás até povoar o teu pequeno planeta. Sim, tu agora já não vives numa nuvem fofinha mas num pequeno planeta, que eu e tu e a andorinha fomos criando a pouco e pouco. Mas só te dou essa AMIGA se ambos me fizerem uma promessa solene: Hão-de cuidar sempre muito bem do vosso planeta. Não haverá poluição, nem guerras, nem maldade, nem pessoas egoístas a quererem tudo só para si.”
O Menino concordou logo. Gostava tanto da sua nuvem-planeta, era mesmo o que queria, tê-la sempre impecável e viverem nela em Paz e com Alegria.

No dia seguinte, que era domingo de Páscoa, chegou a Amiga, a Menina. Veio num balão de ar quente todo enfeitado com flores e acompanhada pela Mãe Natureza. Não me perguntem donde vinha, não sei, nem isso faz diferença para a nossa história, estava ali para ser a AMIGA do Menino e tornar alegre aquele pequeno planeta.
Fizeram os dois a promessa solene à Mãe Natureza, na presença de todos os animais, e passou a ser essa a preocupação maior da sua Vida: manter o planeta limpo, arejado, produzir alimentos saudáveis, dar trabalho a todos, ajudarem-se uns aos outros, divertirem-se sem se incomodarem, enfim, serem criativos, responsáveis, alegres e diligentes.
Houve uma grande festa. Cantaram, dançaram, divertiram-se e comeram muitos ovos de chocolate. Tantos, que no fim ainda sobraram para enviar para a Terra e se espalharem por aí, pelos nossos quintais.
Prometam também à Mãe Natureza cuidar bem dela e corram a apanhar os ovos de chocolate (olhem que são de produção biológica). Juntem-nos num grande cesto para que depois os possam dividir igualmente por todos os meninos, para que todos fiquem amigos.

quarta-feira, 30 de março de 2011

A MENINA QUE AMAVA AS FORMIGAS
Como eu tenho saudades daquela pequenita, tinha 3 anos na altura, e chamava-se
Filipa. Andava ainda um bocado desengonçada, balançando o corpo para um e outro lado. Gostava de ir para o quintal. E lá ia ela, arrastando uma almofada por um dos cantos, instalar-se perto de um qualquer formigueiro e olhar para as formigas. Assim passava horas.
“Porquê Filipa? O que têm de especial as formigas?”
E ela, com a sua voz grossa, muito pausada: “Eu amo as formigas.”
Passaram-se mais de 40 anos e nasceu esta história que dedico aos meus netos filhos da Filipa.

A Menina que amava as formigas,
Com elas queria brincar…
Como fazer? Tão pequeninas,
Tinha receio de as esmagar…

Concentrou-se com atenção,
Fechou os olhos,
Encheu-se de imaginação,
Fez força a valer
E começou a encolher:
Os pés, as mãos,
As pernas, os braços,
E também o coração.
As roupas ajustaram-se,
Até as botas minguaram,
E a Menina agora pequenina,
Do tamanho das amigas,
As formigas,
Correu para o formigueiro,
Seguindo pelo carreiro,
Na esperança de encontrar
Uma amiga com quem brincar!

As primeiras a passar
Não lhe ligaram.
Sempre carregadas,
Na sua labuta iam e vinham
Tão atarefadas,
Nem se dignavam olhar…
A Menina que amava as formigas,
Que as queria ter como amigas,
Pensou, sem desanimar,
Alguma há-de vir
Alguma hei-de encontrar…

Então, a sorrir,
Lá no fundo do carreiro,
Bem perto do formigueiro,
Surgiu a Umbelina,
Uma formiga pequenina!
E a Menina…
Aproximou-se sem hesitar
E disse à formiga:
“És tu de certeza, a amiga.
Anda! Vamos brincar!”

E lá foram, de mão dada,
A correr e a saltar,
As duas encantadas,
A aventura a começar…
“Bom dia, amigas,”
Diziam as outras formigas,
“Olhem a Umbelina,
Traz uma menina,
Deixai-as passar,
Toca a trabalhar”.
E lá foram andando,
Até encontrar
Uma grande migalha
Para transportar…
Força Umbelina,
Agarra Menina,
As duas a empurrar
A migalha a rebolar…
A Menina tropeçou,
A bota resvalou,
Ai que vou cair!
De pernas para o ar,
A rir, a rir,
Lá foram a escorregar…
Menina e formiga,
Bota e migalha,
Tudo pelo ar!

Ninguém se magoou.
À entrada do formigueiro
Foram parar!
As formigas-soldados
Não as deixaram entrar.
“Vão dizer à rainha-mãe:
A minha amiga vem por bem,
Só para a visitar”
Pediu a Umbelina
A choramingar….
Depois de conferenciar
Lá as deixaram entrar!

Tantos túneis, galerias,
Salas e salões,
Cozinhas e berçários,
Celeiros e infantários,
Tudo muito arrumado,
Varrido e bem lavado.
As formigas-obreiras
São tão trabalhadeiras,
Põem tudo a brilhar,
Correm, correm, sem parar.

Lá no fundo do formigueiro,
Numa sala especial,
Num trono deitada,
Com o seu manto real,
A rainha coroada
Punha ovos sem parar
Mais de cem, mais de um milhar!
E as pobres das obreiras
Que não são mães verdadeiras,
Com ternura e carinhos,
As larvas alimentavam
E delas cuidavam,
Dando-lhes mimos e beijinhos.

A Umbelina e a Menina
Fizeram uma vénia à rainha.
E sem se desmanchar
Deram dois passos em frente,
Três para trás devagar…
A rainha sorridente,
Sem parar de desovar,
Botou discurso à altura
Com bonita faladura:
“Tu amas as formigas,
Nós te amamos também,
A nossa casa é tua…
Sempre que queiras… vem!”

Saíram dos aposentos reais.
A Menina que amava as formigas
Ama agora muito mais!

Acabou a aventura,
Mais não há para contar.
A Menina…
Concentrou-se com atenção,
Fechou os olhos,
Encheu-se de imaginação,
Fez força a valer
E começou a crescer…



Avóinha Sãozinha

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

Anjos da mjnha Igreja


Anjos da Minha Igreja

Na Igreja da minha Terra
Há anjinhos no altar
São tantos os anjinhos
Ai! Quem mos dera contar…

Dois e dois e mais dois
Seis são.
E mais seis uma dúzia
Pois então.
E três quinze e três dezoito,
Dezanove, vinte, vinte e um.
E um e outro e mais algum…

Quando eu era pequenina
Gostava de imaginar:
De noite, pela calada,
Desciam os anjos em revoada
Dos seus lugares no altar!
Havia um mais atrevido,
No Sacrário ia pousar,
O Menino Jesus espreitava
E que contente ficava,
Com os anjos ia brincar!

Um dia, devagarinho,
E sem ninguém o saber,
Levei uma bola p´ra Igreja,
Deixei-a num cantinho
P´ros anjos a poderem ver…


Na noite desse dia,
Na minha cama, enquanto dormia,
Sonhei. Vi os anjos a jogar:
Duas equipas em campo,
O Menino Jesus a rematar!
Um anjo, na baliza, defendia,
Outro com a bola fugia,
Lá vinha um p´ra lha tirar,
Corria outro a driblar…
Eu, entusiasmada, aplaudia!
O Menino um golo metia!
Goooo…lo! Goooo…lo! Que alegria!

Pela manhã, a correr,
Fui à Igreja p´ra ver:
Os anjos lá estavam,
Cada um no seu lugar,
A bola no mesmo canto
Sem dali nunca arredar.

Mas eu sabia,
(O segredo era só meu),
Que os anjos à porfia
Com o Menino Deus
Na Igreja, em Nelas, brincavam
Como se estivessem nos céus!


Nelas, 15 de Agosto de 2010
Festa da Assunção de Nossa Senhora

Avoinha Sãozinha

quarta-feira, 7 de abril de 2010

História do Rato Rateco e da Ratinha Filó

HISTÓRIA DO RATO RATECO E DA RATINHA FILÓ


O Rateco e a Filó vivem em casa da Avóinha, na Serra da Amoreira, debaixo do armário da cozinha. São muito meus amigos.
Quando lá estou sozinha, sem ninguém ver, Dom Rateco e Menina Filó saiem do seu buraquinho e vêm até cá fora. Como são ratos especiais conversam muito e eu trato-os bem. Dou-lhes papinhas: queijo, pão, doces; e também coisas pequeninas para arranjarem a sua casa: trapinhos para cobertores, caixas de fósforos vazias para fazerem a mobília e até um dedal para fazer de lavatório.
A casa deles é muito bonita: tem janelas e cortinas e até jarrinhas com flores.
Nas nossas conversas falamos dos netos da Avóinha. Uns maiores outros mais pequenos, algumas meninas e também rapazes.
E falamos de outros meninos que a Avóinha conhece ou não conhece, que lêm esta história ou a ouvem contar… Os ratinhos queriam muito conhecer todos os meus amigos, mas são tão envergonhados. Quando aparecem meninos que os querem ver, escondem-se sempre debaixo do armário. E os meninos ficam tristes e a Avóinha fica triste e os ratos... cheios de medo!
Por isso, agora, vou tentar ajudá-los a perder a vergonha e o medo. Arranjei umas botas e uma jaqueta para o Rateco e uma saia rodada e um chapelinho para a Menina Filó. Que bonitos eles ficaram! Comprei-lhes uns bilhetes pequeninos para o autocarro e mandei-os passear. Ah, esquecia-me de dizer: Também comprei uma carteira para pôr a tiracolo, para a Filó e um guarda-chuva para o Dom Rateco.
Gostaram muito do passeio que contarei numa próxima história… e prometo-vos, se se portarem bem, mais histórias destes ratinhos tão engraçados, que afinal vivem na imaginação . da Avóinha
Sabem, meninos, estes ratinhos são o segredo da Avóinha e são tão velhinhos que também já eram o segredo da Bisavó e se continuarem a ter vergonha e a não se quererem mostrar, um dia passarão a ser o segredo das vossas Mães, quando os meninos forem grandes e tiverem filhos e as vossas Mães passarem a ser avóinhas.

Serra da Amoreira, 27 de Janeiro de 1996

Maria da Assunção Ferraz de Oliveira

O Passeio do Rato Rateco e da Ratinha Filó

O PASSEIO DO RATO RATECO E DA RATINHA FILÓ

Lembram-se do Rateco e da Filó, aqueles ratinhos simpáticos, amigos da Avóinha, que viviam lá em casa e eram muito envergonhados? Pois foram passear. Não queriam. O medo e a vergonha que fazem com que sempre se escondam, eram mais fortes do que eles, mas tanto teimei que consegui convencê-los.
Saíram os dois de mão dada ou pata dada, mais propriamente, levando na maleta o GPS pequenino que lhes ofereci e uma bela merenda para comerem quando a fome chegasse.
Encontraram uma sombra logo à saída de casa, sentaram-se numa pedrita, pegaram no GPS e toca a planear a viagem: Conversa daqui, conversa de acolá, escolheram o local mais próximo, o Parque do Monteiro-Mor e o Museu do Traje.
Correram pela serra abaixo até à paragem da camioneta. Esta parte da viagem foi fácil, sempre a descer, ninguém os viu e a vergonha… não foi precisa… ficou no saco.
O primeiro problema foi a subida para o autocarro, o degrau era tão alto!
Valeu-lhes uma velhota que subiu devagar: agarraram-se à saia dela e lá foram aos trambolhões até aterrarem debaixo de um banco.
Agora é que são elas! É preciso mostrar os bilhetes ao Sr. Condutor. Vai tu, vou eu… quase se zangaram, mas resolveram ir os dois. O homem, quando os viu em cima da máquina, abriu a boca até às orelhas, arregalou os olhos e ficou sem fala! Os bilhetes eram válidos, só lhes fez sinal que podiam seguir, e a vergonha continuou dentro do saco.
Saíram no Lumiar, deram um pulinho para a rua e depressa chegaram à porta do Museu.
O pessoal foi simpático, deixaram-nos entrar mesmo sem bilhete, (não tinham bilhetes para ratos), mas fizeram-lhes uma recomendação que diziam ser muito importante: É EXPRESSAMENTE PROÍBIDO ROER SEJA O QUE FÔR: TRAJES; TAPESSARIAS, QUALQUER TEXTIL. SE ISSO ACONTECER O RATICIDA ENTRA EM ACÇÃO. Os nossos ratinhos como eram civilizados, claro que não roíam nada. E o raticida? O que era isso? Não sabiam, não se assustaram.
Que bela visita! Havia trajes lindos, do século XVI até aos dias de hoje, trajes de reis de Portugal e da sua Corte, modelos de costureiros famosos e uma grande colecção de trajes regionais.
Os ratinhos estavam encantados, já nem se lembravam da vergonha.
A Filó dizia ao Rateco: Quem me dera poder usar um vestido destes! Olha aquele, de seda verde clara, com mangas tufadas, saia de balão, grande decote e bordado no peito. Que linda eu ficava e como tu havias de ficar orgulhoso da tua ratinha!
Respondia o Rateco: Pois é, mas eu gosto de ti mesmo assim e para mim era complicado ter de usar uma cabeleira como a daqueles senhores…
E a secção dos acessórios: Chapéus, sapatos, malas, botões, óculos, leques, era um nunca acabar de coisas lindas que os encantavam. Podiam ficar ali toda a vida que havia sempre mais e mais coisas para ver!
A merenda no Parque do Monteiro-Mor soube-lhes bem.
Que árvores tão grandes! Aquela araucária que já vem do século XVII fê-los parecer ainda mais pequeninos. E o Lago dos Leões e o dos Cisnes, os peixinhos, os patos e os pássaros em grandes espaços onde não se sentem presos como nas gaiolas! As ruas, as pontes, as grutas, as escadas e os caminhos! Correram, saltaram, brincaram, jogaram às escondidas. Os ratinhos estavam felizes!
Já era quase noite quando foram embora. Tinham-se esquecido das horas, o tempo passou tão depressa!
À saída tiveram uma surpresa: A Avóinha à espera deles.
Foi só dar uma corrida, entrar no carro e, muito bem sentados no banco de trás, com os cintos apertados, não mais se calaram até casa. Contaram tudo, com todos os pormenores!
Gostei de os ouvir. Ao chegar a casa perguntei-lhes se já tinham perdido o medo e a vergonha. Eles, muito cansados, disseram-me, baixinho, ao ouvido: “Medo já não temos, mas a vergonha não a podemos perder, senão tínhamos de deixar de ser o segredo da Avóinha”.

A Ninhada da Ratinha Filó e do Rato Rateco

A NINHADA
DA RATINHA FILÓ E DO RATO RATECO

Que bela surpresa hoje pela manhã! A Filó apareceu à hora do pequeno-almoço e vinha com uma barriga tão grande e tão redondinha! “Está à espera de ratinhos! Está à espera de ratinhos!” exclamou a Avóinha toda entusiasmada. “É verdade” disse a Filó com a sua vozinha aflautada e apareceu logo o Rateco todo importante porque ia ser pai.
Resolvi ajudá-los a preparar o enxoval. Não havia tempo a perder pois as ratas só tem 3 semanas de gravidez!
Quantos ratinhos iriam nascer? Só na hora se saberia. (Porque não há médicos de ratos, nem ecografias, essas coisas só são usadas em ratos de laboratório o que não era o caso dos nossos amigos). Assim fizemos uma dúzia de camisinhas, alguns casacos de malha, toucas para a cabeça e alguns babetes. Ainda pensámos fazer botas, mas era uma trabalheira: cada rato com quatro pés!
Arranjámos um ninho com algodão em rama para a Filó ter os filhos.
Depois fizemos o berço: Que coisa linda: A base era uma cestinha, redonda, pequena, que a Avóinha encontrou no sótão e que antigamente servia para fazer requeijões. Foi toda forrada: por fora com folhos de um tecido às florinhas azuis e cor de rosa (dava para ratos e ratas), por dentro seda branca bem acolchoada com pelo da Filó e do Rateco que eles arrancaram com todo o carinho para os seus “meninos”. De uns bocados de tecido de lã escocesa fizemos os cobertores, e por cima, ainda houve tempo para fazer uma manta de crochet, às rosetas, toda branquinha. Ficou lindo, o berço, e os pais ratos encantados.
Depressa se passaram as três semanas. Numa bela manhã de Primavera apareceu o Rateco, não cabia em si de contente, a anunciar: “Nasceram os ratinhos, esta noite, e são lindos! A Mãe está feliz a dar-lhes de mamar.”
Fui logo vê-los. Pus-me de joelhos no chão e espreitei para debaixo do armário (tão pequeninos, ainda não podiam sair do ninho). Que beleza! Todos cor-de-rosas, de olhos ainda fechados mas já a enroscarem-se, a esticar as pernitas e a chiar: Hi!... Hi!... Hi!...
Eram três meninos e duas meninas! Os pais estavam encantados e a Avóinha também!
“Já temos nomes para eles” disse a Filó, “Joanico, Sarapico, Tico-Tico, Marieta e Carapeta!”
E a Avóinha, entusiasmada, fez logo uma canção para os embalar:

Nana, nana, Sarapico…
Dorme, dorme, Tico-Tico…
Joanico, meu amor,
Olha as manas, por favor:
Não acordes a Carapeta,
Deixa dormir a Marieta,
Ninguém pode chiar…
Quero tudo a descansar…

Nana, nana, Sarapico…
Dorme, dorme, Tico-Tico…

Nana, nana, Marieta…
Dorme, dorme, Carapeta…
Cada qual no seu lugar,
Quero todos a descansar…
Sarapico e Joanico
Não acordem o Tico-Tico,
Assim mesmo enovelada,
Que bela é esta ninhada!

Nana, nana, Marieta…
Dorme, dorme, Carapeta…


Serra da Amoreira, Março de 2010

Para os meus netos mais pequenos
Avóinha Sãozinha

domingo, 28 de março de 2010

Histórias para a Páscoa - A Pata Genoveva

CATRAPUZ!...
O que é isto... Que aconteceu?... Estava a dormir tão bem, na minha cama, tão sossegada, e… de repente… Que é isto?... Que foi?... Um bicho?... Tem penas e faz cuá-cuá… Esfrego os olhos, penso que foi um sonho mau, mas o bicho está a mexer-se… e eu cheia de medo encolho-me, escondo a cara na almofada… e agora o bicho puxa-me pelos cabelos, faz-me cócegas atrás das orelhas… quer mesmo chamar a minha atenção!…
Não, assim não pode ser. Eu sou corajosa! De um pulo sento-me na cama, cruzo as pernas, e… à minha frente está uma pata. Que linda pata! Toda branca, gordinha, a piscar-me o olho e a rir-se para mim.
Estou mesmo a ver que não acreditam no que eu digo… Mas olhem que é verdade e eu vou explicar:
Hoje é Domingo de Ramos, de hoje a oito dias Domingo de Páscoa. Eu andava aflita, ainda não tinha história para os netos, nem tempo para a escrever, nem ideias engraçadas, nem malucas, nem desajeitadas…
Então a minha imaginação descobriu a pata, e ela aqui está, de carne e osso, aterrou em cima da minha cama e prepara-se para nos contar a sua história.

História da Pata Genoveva

Eu sou uma pata lisboeta. O meu Pai e a minha Mãe viviam no Campo Grande mas quando resolveram ter uma família mudaram-se para o Jardim da Estrela. Era mais abrigado, não tinha tanta poluição e como tem gradeamento a toda a volta, eu e os meus irmãos ficaríamos mais protegidos. Assim, num ninho à beira do lago, onde a minha Mãe pôs oito ovos e onde durante quatro semanas os chocou com muito amor e carinho, nascemos nós, seis patas e dois patos. A mim puseram-me o nome de Genoveva, Genoveva Pata Estrela, nascida na freguesia da Lapa, concelho de Lisboa, no dia 18 de Junho de 2004, só não tenho nº de B.I. porque os patos não usam bilhete de identidade.

Cresci no Jardim da Estrela, muito feliz. Brincávamos, eu e os meus irmãos, nadávamos e mergulhávamos no lago e gostávamos de andar sempre em fila uns atrás dos outros. Parece que eu era a mais atrevida, dizem os meus Pais. Gostava de pregar partidas às pessoas que passeavam no jardim, sobretudo aos namorados que estavam sempre tão entretidos que nem davam pela falta dos lenços e carteiras delas, com que eu gostava de me enfeitar, ou dos óculos escuros e bonés deles com que eu fazia palhaçadas e divertia os meus irmãos. Uma dia apanhei um MP3, puz os auscultadores nos ouvidos e… foi uma festa! Dancei, dancei, dancei sem parar! Juntou-se uma roda de gente, aplaudiam, batiam palmas e diziam: A patita tem alma de artista!
A minha Mãe é que não gostou nada: “Oh Genoveva, foi esta a educação que te dei? Uma menina pata bem-educada deve ser recatada”.
Agarrou-me pelo rabito e lá me levou, aos trambolhões, para a casa dos patos, à beira do lago. Chorei, chorei, toda essa noite!... O meu desgosto não era tanto por a minha Mãe me ter ralhado, era sim, por ter descoberto que era uma pata artista e que se calhar a família não ia gostar nem ia apoiar a minha arte.
Nos primeiros tempos foi duro, chamavam-me maluca, riam-se, e os meus irmãos atrás de mim, cantavam assim:

Genoveva, Genoveva,
Ninguém te quer, ninguém te leva,
Tem graça uma pata actriz?
Só, com um dedo no nariz!
E nos estúdios da televisão?
Pata é boa p´ra lavar o chão!
Genoveva, Genoveva,
Ninguém te quer, ninguém te leva…

Mas eu nunca desisti. Treinei, às vezes escondida atrás das árvores, estudei, fiz ginástica, ballet, tirei cursos de arte. Logo que comecei a ter asas bastante fortes para poder voar, atrevi-me a sair do jardim e voei até ao Chapitô*. Aí ensinava-se arte a sério e ninguém se importava com a aparência dos outros, aceitaram-me mesmo sendo pata e fiz-me uma grande artista.
Ao voltar ao jardim o ambiente era outro. Os meus Pais envaideciam-se com a minha arte, os meus irmãos entusiasmavam-se e queriam sempre assistir aos meus espectáculos. Os jardineiros, tratadores de animais e guardas que trabalhavam no jardim orgulhavam-se de mim. Os passeantes, namorados, velhotes, avós com os seus netinhos, garotos vindos das escolas, todos passaram a ser meus incondicionais espectadores
Consegui fazer o que queria na vida. Hoje sou uma artista consagrada. Há cartazes por Lisboa a anunciarem as minhas actuações, já trabalhei no Teatro D. Maria II e até já contracenei com a Eunice Munhoz e com o Rui de Carvalho!

Deves estar agora a pensar porque é que eu vim parar aqui, acima da tua cama, e, agora, na altura da Páscoa. É que os artistas gostam sempre de colaborar nas boas causas. E é uma boa causa distribuir ovos de chocolates pelos meninos de todo o mundo no Domingo de Páscoa.
Queres-me dar os teus ovos para eu os ir esconder por esses jardins do mundo inteiro? Como tenho umas asas fortes consigo chegar a toda a parte… E. também posso fazer os meus números artísticos, e que poderão ser vistos por todos os meninos com os olhos da sua imaginação…


Páscoa, 2010

Maria da Assunção Ferraz de Oliveira

*Escola Profissional de Artes e Ofícios do Espectáculo